segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A dose ideal.



A dose ideal seria a dose certeira. Aquela dose capaz de aniquilar tudo. A dose ideal seria aquela que terminaria tudo em poucos segundos, enquanto os olhos se cerram silenciosamente. A dose ideal me faria confundir um sonho com a realidade, e serenamente, eu sairia da realidade para entrar no sonho. A dose ideal viria como a bala certeira da arma, como um bom cálculo de peso e força, como a nítida quantidade de solução. A dose ideal viria numa tarde tranquila de quinta-feira, quando o sol se põe nítido e translúcido lá fora. A dose ideal viria em qualquer dia normal, com a casa em ordem e a comida farta na geladeira, com o banheiro limpo e a cama arrumada, a mesa posta e as contas pagas. A dose ideal viria em um dia bom para todos, como uma continuação da vida, mas o fim dela para outra pessoa. A dose ideal viria como uma forte tempestade após um lindo dia de sol. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Caixa de Pandora

               (Anna Karina, no filme "Viver a Vida", de 1963, com direção de Jean-Luc Godard)


E a vida segue sendo injusta em sua regra básica para todos nós, reles mortais: de que quando temos tempo não temos dinheiro; e quando temos dinheiro não temos tempo. Dinheiro o suficiente para termos nossos sonhos tão mesquinhos ou mais dinheiro para comprar bens de consumo cada vez menos duráveis. A vida continua sendo de tempos difíceis para os sonhadores. E continuamos trabalhando tanto, queremos mais dinheiro, suportando pessoas e situações insuportáveis. Há somente um momento, uma época na vida em que é possível ser o que a gente quiser, da forma que a gente quiser, que, acredito eu, é na adolescência. Logo depois você descobre que a vida não é uma “Caixinha de Surpresas”, mas sim uma Caixa de Pandora. E quando menos percebemos estamos seguindo a manada de cabeça baixa, num passo lento e profundo, num mesmo ritmo, rumo ao mesmo lugar. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A arte do desapego


(Marilyn Monroe fotografada no Hotel Ambassador, NY, em 1955).

É incrível a nossa capacidade de adaptação. Parece que quanto mais velhos ficamos, mais aprendemos a nos desapegar de objetivos, pessoas e preocupações. A gente acaba criando uma película a fim de nos proteger ou evitar certas dores de cabeça desnecessárias. Há alguns anos atrás eu me via constantemente ansiosa pela vida, pelo trabalho, pela faculdade, por diversos motivos que eu não tinha como controlar. Eu não iria conseguir fazer o tempo passar mais rápido para que, assim, eu pudesse viver tudo isso o quanto antes. Não vou me vangloriar aqui dizendo que hoje sou uma pessoa totalmente controlada e livre de ansiedade e emoções de afobação, mas digamos que tenho conseguido me conter e lidar com isso de forma melhor. Hoje eu me pego pensando, sentada no terraço do meu Jk, em quantas coisas eu já conquistei. Eu, sozinha, conquistei o meu lugarzinho ao sol, mesmo que ele seja um Jk pequeno mas bem localizado em Porto Alegre. Eu conquistei o rompimento do cordão umbilical que me ligava aos meus pais no dia em que resolvi me mudar para a capital. Eu conquistei meu primeiro emprego sem o famoso jeitinho do interior (indicação dos pais ou trabalhando com os pais). Eu conquistei meus móveis, todos pagos por mim e não interessa que foram negociados em 10 vezes. Eu conquistei a minha faculdade e só eu sei o quanto é suado quitar ela todos os meses. Tenho hoje tantos motivos de orgulho que não me apego mais sofrendo por antecipação. Não quero parecer solitária ou egoísta, ou até mesmo individualista, mas eu mesma me basto. Chega uma hora em que a gente cansa de ficar esperando visita em casa e se vê bem melhor apenas com a sua própria companhia.